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quarta-feira, 17 de outubro de 2007

A DEMOCRACIA DE BUSH


Por Misael Nóbrega de Sousa (colaborador)

Os cinegrafistas eram os nossos olhos - com suas câmeras nervosas a nos colocar no ambiente da invasão. Mesmo assim, a TV provoca um fenômeno de distanciamento das coisas. Comovemo-nos com as atrocidades, mas não somos parte. É como se ao desligarmos a tomada, intuitivamente, interrompêssemos, também, a guerra.A toda hora os EUA parecem querer dar provas de seu poderio bélico, mesmo que o alvo seja uma mentira. Quando a fumaça foi dissipada vimos uma Bagdá arrasada; e, um inimigo, oculto.Saddam Hussein foi achado enfiado num buraco, feito bicho, depois de ter sido acossado pelas tropas americanas. Talvez, mais deprimente que a cena da forca, tenha sido as imagens transmitidas para o mundo, onde médicos da cruz vermelha examinavam os dentes de “el ditador” e catavam os piolhos de sua barba - que havia ganho confins de imundície.Quem na pequena Tikrit, que fica a 160 quilômetros da capital iraquiana, poderia imaginar que seu filho mais “ilustre” teria momentos assim, antes de se contorcer até a morte?Não era “o fim da tirania”. Não era o ritual da morte iminente. Não era a ausência dos sinais vitais que bastava; tampouco, o confinamento de seu corpo moribundo numa vala de indigentes. Não era o homem que deveria morrer. Era a execração pública... – para que morresse, definitivamente, o conceito. Não há martírio na forca; há humilhação. O corpo fica suspenso, pois a ele é negado o direito de ter o céu, pela fraqueza de seus dias; como, também, lhe é tirado a terra pelo desprezo aos seus pares. A cabeça e os pés não pertencem a lugar nenhum. E se não há os animais carniceiros a lhes mordiscar os olhos, como na idade média, quando os corpos balouçavam nos galhos das árvores, até se deteriorarem, há milhares de vozes a lhes tecer algum jugo. Alguém, ainda, fez-nos o favor de espetacularizar a ação, filmando, a agrura do prisioneiro, antes que lhe pusessem o capuz. Veio, após, o laço em volta do pescoço; e, afinal... o baque, rápido, penoso. Um corpo dependurado pela história. Um ato que pode ter sido ensaiado, exaustivamente, para aquele arremate (embora eu tenha ficado com a impressão de que estava mais para cenas dos próximos capítulos). Nós fomos os heróis, os juízes e os carrascos de Saddam Hussein – não imagino outro rosto por trás da máscara que não seja o meu.




Jornalista e professor

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