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domingo, 22 de agosto de 2010

Plano de Morte


MARCUS ARANHA


Há tempos, fui à Cuiabá.                                                                             
Na volta, a VASP foi a empresa aérea que me serviu. O vôo de Porto Velho à João Pessoa, só não parava em Bom Jesus da Lapa. Em cada escala, distribuíam o jornal local. Durante a viagem li o Diário da Amazônia, o Diário de Cuiabá, o Popular (Goiânia), o Correio Braziliense, o Bahia Hoje, o Jornal da Cidade (Aracaju) e o Diário de Pernambuco.
Do jornal de Aracaju caiu um folheto que me chamou a atenção: VIDA ETERNA - Serviços Póstumos Ltda. Vida Eterna também é uma empresa de viagens, só que sem escalas, sem aeromoças e sem jornais. Seus clientes só viajam pra um lugar: o infinito. Os “serviços póstumos” que Vida Eterna oferece são serviços funerários.
Na propaganda, Vida Eterna dizia francamente que “quando se perde um ente querido, além da dor do sentimento de perda, existem outras questões como gastos materiais e aspectos burocráticos que acabam desgastando ainda mais”. Em outras palavras, ela adverte que você pode chorar mais o preço do enterro que a perda do finado. Num lance de marketing espetacular, Vida Eterna alardeia: “A dor nós compartilhamos, os problemas nós resolvemos!” E continua, “Menos mal! Vida Eterna garante a você e a toda sua família, carro funerário para sepultamento, velas, desembaraço de papéis, paramentação de metais, taxa de sepultamento e um salário mínimo como auxilio funerário”.
Aí vi que a exemplo das empresas de saúde, Vida Eterna criou planos de morte. Associado deles, você garantia desencarnar através de quatro planos: Simples, Luxo, Super Luxo e Super Luxo Especial. As mensalidades iam de R$15 a R$40,00.
Pela propaganda a coisa era válida. Vida Eterna garantia trazer o falecido do necrotério do hospital até o local do velório, deixando-o rodeado de velas e “paramentado” com metais. Desembaraçar os papéis e pagar a taxa de sepultamento. E um auxílio funerário de um salário mínimo, que serve para você comprar óculos escuros no camelô, umas flores pr’o extinto e botar gasolina no carro pra acompanhar o enterro dele.
Hoje, pra enterrar decentemente seus defuntos, a classe média vai ter que fazer e pagar um plano de morte. Está aí aonde a globalização e a competitividade nos levou.
Como temos pouco dinheiro, as funerárias devem bolar um crediário para morte e começam a lançar planos. Vamos te-los os mais diversificados, assim como os de saúde.
O plano Morte Bronze, mais barato, onde o enterro é feito em velório coletivo, sala pr’a dois caixões, banco para 6 visitantes, crucifixo de madeira, 2 velas de cabeceira e com permanência de 12 horas, a família chorando o finado às pressas, sem esperar os parentes que moram longe. O plano Morte Prata, custo médio, daria direito a velório individual, sala com um caixão, crucifixo de metal, bancos para 12 visitantes, 2 coroas, 4 velas cabeceira e pés, livro para registro de presença com 8 folhas, água gelada e permanência de 24 horas, tempo suficiente pra chorar o distinto a vontade. E para classe alta, teríamos o plano Morte Ouro, muito mais caro, com direito a velório individual, sala para um caixão, com toalete e bancos para 24 visitantes, 4 coroas, crucifixo e castiçais de prata, 6 velas cabeceira, médio e pés, Livro Negro para registro de presença de 24 folhas, distribuição de lenços descartáveis, água gelada e cafezinho, serviço de enfermagem para atender desmaios e chiliques, permanência até 36 horas, com tempo de chegarem os parentes de outros Estados e até do Exterior.
Tai... Fica a idéia da “Vida Eterna” de Aracaju, pra’s funerárias daqui da terra.    Cuidem e lancem no mercado os seus planos de morte.

Publicado em o Correio da Paraíba de 22 de agosto de 2010

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