Marcos Eugênio
Mentira tem perna curta, diz o adágio popular.
Mas para um público bem diversificado, empresários, políticos, funcionários
públicos, vendedores e uma infinidade de cidadãos comuns, que gostam de
compartilhar um mesmo espaço, ela tem sido importante norteador das conversas
que embriagam momentos de lazer, dor de cotovelo, quebra da rotina.
“Bar Encontro dos Mentirosos”. Este é ponto
onde rola muita mentira, como o próprio nome sugere, mas sem a maldade, sem o
prejuízo daquelas causadas, por exemplo, pelos políticos de carteirinha. Os
assuntos pra lá de “cabeludos” nas conversas, entre uma pinga e outra, nas
rodadas de cerveja versam sobre futebol, aventuras dos narradores, casos
amorosos e por vai solta a imaginação de todos.
Natural de São Mamede, Walter Candeia, 65 anos,
a idade é verdadeira, bate com os dados de seu RG, há 12 anos abriu o
estabelecimento na Rua Luiz José, próximo à Igreja de Nossa Senhora de Fátima,
no Belo Horizonte. Diz que diferentemente de seus clientes, não mente jamais,
apenas os recebe com toda a cordialidade possível. Apesar de ser dono do bar,
quem manda mesmo no recinto é sua esposa, segundo nos informaram alguns
presentes.
Muitas histórias marcam esses 12 anos do Bar Encontro
dos Mentirosos. Uma das mais lembradas por Walter, ex-jogador de futebol, tendo
defendido nos anos 78 e 79 o Central de Caruaru é sobre um amigo seu, que
tomava banho no rio que corta a cidade de Pombal e em certo momento sua aliança
de casado caiu do dedo. Apesar dos inúmeros mergulhos dele e outros colegas o
compromisso de vida conjugal que valeria até que a morte o separasse da esposa,
não foi encontrada.
O tempo passou. Vários meses depois, enquanto
peneirava areia que havia retirado do rio para uma reforma em casa, o amigo de
Walter encontrou a aliança. Confirmou que era de sua esposa devido as iniciais do
nome dela gravadas na parte interna do adorno. “O pessoal que escuta essa
história diz que é mentira, mas foi assim que ocorreu”, garante o dono do bar
que só fecha uma vez por ano, no dia 1º de abril.
O bar abre às 7h da manhã. Ao meio-dia os
clientes são lembrados por um sonoro apito semelhante ao canto do galo, de que
é o momento de fechar as portas, que voltam a ser reabertas às 14h, indo até às
18h30, quando o canto ecoa assustando os fregueses. “Geralmente, após avisarmos
que vamos fechar, damos mais 15 minutos de tolerância”, informa Walter.
Frequentador assíduo do Bar Encontro dos
Mentirosos, Mozart Marinho diz que há um tipo de cliente que aparece constantemente
no bar. Trata-se de homens separados, que começam a tomar pinga e debulhar suas
amarguras, a chorar no ombro do amigo que pacientemente lhe escuta. “Realmente
é um local autêntico. Muito agradável e variado cardápio, o que atrai cada vez
mais clientes”, diz Mozart.
Cardápio
O cardápio do bar foi elaborado por Seu Walter
caprichosamente. Dentre os petiscos estão o peixe, que na verdade são rodelas
de pepino. Se o cliente pedir ovos de codorna irá à mesa seriguela estourada.
Se quiser algo mais sofisticado pode solicitar ao dono do estabelecimento um
caviar de baiano (pipoca), uma das especiarias da casa, que não recebe cartão
de crédito e não pendura conta. Em meio à gozação a cerca do cardápio, que não
oferece atrativos refinados, o local é bastante movimentado, sendo ponto de
encontro para bate-papo dos amigos, que levam à risca o nome do bar e buscam
renovar seu repertório de mentiras.
Palpite
Entre tantas e bem boladas mentiras, sempre de
forma sadia, a rotina do Bar dos Mentirosos segue alegrando o dia-a-dia de
muitos patoenses, que gostam de uma branquinha ou de uma loira gelada.
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